Gonçalo M. Tavares + Os Espacialistas apresentam, na Universidade Lusíada, livro sobre "Museu imaginário da Europa e outras ideias".
O escritor e professor Gonçalo M. Tavares e o coletivo artístico "Os Espacialistas", que colabora regularmente com a Faculdade de Arquitetura e Artes (FAA) da Universidade Lusíada (Lisboa), em projetos com os estudantes da licenciatura em Arquitetura (mestrado integrado), apresentaram, no dia 13 de março de 2025, nas instalações da referida instituição, o seu último projeto em coautoria: "Museu imaginário da Europa e outras ideias", lançado em dezembro último. O livro, composto por cinco cadernos, com cerca de 500 páginas, é uma edição da Relógio D'Água, no âmbito do programa "Aveiro, Capital Portuguesa da Cultura 2024", e atravessa as ideias de espaço, arquitetura e fragmento.
O evento, uma sessão híbrida (presencial e on-line), foi organizado e dinamizado pela Professora Doutora Arqt.ª Helena Botelho, diretora da FAA e pelo Professor Doutor Arqt. Fernando Hipólito, igualmente docente da FAA, coordenador do doutoramento em Arquitetura e investigador do Centro de Investigação em Território, Arquitetura e Design (CITAD), que destacaram a ligação d'Os Espacialistas à Universidade Lusíada, onde nasceram em 2008, e onde "assentaram arraiais", nas palavras da diretora da FAA, que agradeceu, ainda, "a grande mais-valia", que é, para todos os cursos da instituição tê-los como residentes, pela partilha de ideias e pelo estímulo para todos os estudantes. Na opinião da Professora Helena Botelho, que leu alguns excertos da obra, o livro "é uma peça belíssima de arte […] que alia a literatura, a arquitetura, a filosofia, tantas outras coisas. Eu diria que até é sonoro, quase musical […]. Não tem que se ler em sequência, [e] todo ele é cheio de detalhes de mensagens encriptadas […]. É uma peça séria e bela, rigorosa, mas divertida." Salientou, ainda, que "nada do que aqui está é ao acaso. E é tudo feito com rigor absoluto".

Ilustração 1 (da esquerda para a direita): Arqt. Diogo de Castro Guimarães, Professor Doutor Arqt. Fernando Hipólito, Professora Doutora Arqt.ª Helena Botelho e Arqt. Luís Maria Batista. (© Fundação Minerva • Jorge Lopes Carvalho, 2025)
O Professor Fernando Hipólito, que aproveitou, também, para realçar alguns trechos da obra, destacou estar presente "[…] na condição de ser arquiteto, ser professor e de ser leitor também", avançando ser, este livro, "[…] uma peça que esteticamente é super-bonita. E é uma peça que, para qualquer arquiteto, quando a folheamos e abrimos, e mesmo a abrimos ao acaso, mesmo virada ao contrário, é super-apelativa pela imagem que transmite. Portanto, esteticamente, é uma peça muito forte." Na sua perspetiva, é, igualmente, um livro que deveria ter "[…] presença no mundo arquitetónico do ensino da investigação dos arquitetos", urgindo, para tal, a sua tradução para a língua inglesa. "É extremamente inspirador e eficaz para o mundo académico, sendo uma obra "[…] claramente instrumental, [e, ainda] um livro de companhia e de mesa de cabeceira, porque é um livro que nos acalma e nos diverte." Chamou a atenção para os textos de Gonçalo M. Tavares, nos quais "se sente um rigor geométrico: se nós lermos os textos, estes têm uma cadência completamente geométrica, como se houvesse uma estrutura conceptual, geométrica, de construção e montagem desses textos."
O escritor Gonçalo M. Tavares, que participou remotamente, referiu que "[...] qualquer disciplina, e aqui se inclui a arquitetura, não deve dispensar a inteligência" e com ela, desenvolver ideias, textos e desenhos que podem lutar contra "a brutalidade – uma arquitetura destrutiva". Nos desenhos dos especialistas, "[…] o traço não é um puro gatafunho. O traço é o final de uma série de pensamentos, [considerando que estes] não são definitivos [e], pensando nas frases, são quase sempre pontos de apoio para outros pensamentos, como se fossem uma pessoa." No seu entender, "[…] o livro não é homogéneo. Ou seja, nós abrimos as páginas e até o tamanho da letra varia, […] e este não homogéneo, parece-me que é fundamental [e] esteticamente, realmente é um livro muito invulgar."

Ilustração 2 (da esquerda para a direita): Arqt. Diogo Castro Guimarães e Arqt. Luís Rodrigues Batista. (© Fundação Minerva • Jorge Lopes Carvalho, 2025)
O fundador de Os Espacialistas, Arqt. Luís Maria Rodrigues Batista, referiu que esta obra "[…] não é um livro previsto, […] é um livro que vai acontecendo." Foi um trabalho no qual se pensou "[…] todas as relações que existem entre a cultura, as fronteiras, o próprio trabalho dos arquitetos e dos artistas." O projeto considerou serem os museus espaços que guardam as memórias e "[…] nasceu desta maneira de pensar: o que é que é a Europa, sem falarmos da Europa de uma forma explícita, mas com esta ideia, de facto artística, do que é um museu, que nasce com a ideia de democracia", algo patente na própria capa do livro. Fez referência a André Malraux (1901-1976), escritor francês e ministro da Cultura de França (entre 1959 e 1969) que "[…] acreditava que a arte já não precisava de se encontrar no espaço dos museus, para onde ela tinha sido delegada, e que estava nas nossas mãos, nas reproduções que todos nós tínhamos da história da cultura, ou seja, pela primeira vez, todos nós tínhamos museus pequenos, pequenos e privados e tácteis." Acrescentou, ainda, que "sem o exercício da imaginação de uma forma diária, sem o exercício da cultura da nossa memória, este livro seria impensável [e] nasce exatamente como um encontro entre todas as imagens d'Os Espacialistas ao longo de quinze anos, até ao momento, […], não sendo uma narrativa fechada, [e é], essencialmente, um encontro, um encontro de imagens, um encontro de culturas, um encontro de pessoas […], e que seja um livro em aberto."
O Arqt. Diogo Paulo Conduto de Castro Guimarães, o outro rosto d'Os Espacialistas, fez uma rápida incursão pelos capítulos da obra, recorrendo às ideias de Corbusier na afirmação de que, aqui, "[…] a arquitetura é entendida como o desenho de livros, como o desenho de objetos. O arquiteto é o criador de um novo ambiente, da organização do espaço e da forma". Referiu que " [...] o título só ficou fechado quando o livro ficou pronto" e não foi uma primeira opção. No final, "[…] achámos, por toda a coleção de conteúdo e de imagens e desenhos que existia e de textos, que se faria sentido chamá-lo 'Museu imaginário da Europa'."
A parte final do evento foi aberta à participação da assistência, composta por diversos docentes da Universidade Lusíada e estudantes dos vários anos dos ciclos de estudo da FAA, que tiveram possibilidade de dialogar com os autores do livro que foram instados a definir, numa só palavra a obra e a resposta do Arqt. Luís Maria Rodrigues Batista, resume, de facto, aquilo que é este trabalho: "mistura".

Ilustração 3: Participação de Gonçalo M. Tavares via on-line. (© Fundação Minerva • Jorge Lopes Carvalho, 2025)
A pertinência da apresentação do livro é ele conter, no seu interior, alguns fragmentos dos projetos realizados ao longo dos anos pelos seus autores, reveladores de um processo de trabalho iniciado no espaço da Universidade com os estudantes de arquitetura, e que está, igualmente, na base de um livro em curso, com a chancela da Universidade de Coimbra e o apoio da Universidade Lusíada. A obra agora apresentada é "[…] um projeto que junta os textos de Gonçalo M. Tavares às fotografias, imagens e desenhos do grupo de artistas e arquitetos d'Os Espacialistas, [resultando numa] obra visual, onde o conteúdo foi organizado de modo a que as páginas recebam o olho do leitor, não apenas a sua leitura." (fonte: Relógio D’Água)
Gonçalo Manuel de Albuquerque Tavares e os arquitetos Luís Maria Batista e Diogo de Castro Guimarães descrevem a obra como "[…] cinco blocos distintos em tom e imagem, mas ligados nesse tecido que texto e projetos imaginários vão formando […]. Todos os projetos ainda não construídos são esboços, esquiços, fragmentos — modos de os seres humanos, e os arquitetos em particular, tentarem não desesperar. Esperar, mas não sozinho e em imobilidade. Esperar ao lado de imagens, produzindo-as, se possível — eis o que muitos tentam. Não desesperar nunca foi fácil." (fonte: Relógio D’Água)
Os Espacialistas constituem um projeto laboratorial de investigação teórica e prática das ligações transdisciplinares entre arte, arquitetura e educação, substituindo o lápis pela máquina fotográfica, enquanto dispositivo de desenho, de pensamento, de perceção e de diagnóstico do espaço natural e construído, cujas ações são reguladas pelo Diário do Espacialista e auxiliadas pelo "Kit Espacialista Por/táctil" que transportam consigo. Entre os trabalhos realizados destacam-se: projetos de assistência arquitetónica e artística a obras de arquitetura e arte, projetos de arquitetura, exposições de fotografia, vídeos, instalações, espaços cénicos, performances, colaborações literárias, ilustrações fotográficas, oficinas, seminários e publicações. Desde o seu início que Os Espacialistas mantêm uma colaboração regular com Gonçalo M. Tavares em livros, artigos de revistas, jornais e publicações de arte, arquitetura e literatura, conferências–performance e palestras. Realçam-se as seguintes publicações: "Museu imaginário da Europa e outras ideias", 2024 (Relógio d'Água); "Sobre: Os Espacialistas + Gonçalo M. Tavares", 2022 (Carlos Carvalho Arte Contemporânea + Stolen Books); "Dicionário de artistas", 2021 (Relógio d'Água); "O torcicologologista, excelência", 2015 (Caminho); "Atlas do corpo e da imaginação", 2013 (Caminho).

Ilustração 4 (da esquerda para a direita): Arqt. Diogo de Castro Guimarães, Professor Doutor Arqt. Fernando Hipólito, Professora Doutora Arqt.ª Helena Botelho e Arqt. Luís Maria Batista. (© Fundação Minerva • Jorge Lopes Carvalho, 2025)
O escritor, poeta e ensaísta Gonçalo M. Tavares recebeu já vários prémios nacionais e internacionais e atualmente é considerado um dos grandes escritores em língua portuguesa do século XXI. A sua escrita deu origem a peças radiofónicas, curtas-metragens, performances, óperas, peças de teatro e projetos de arquitetura, situação na qual colaborou com a FAA da Universidade Lusíada (Lisboa), em concreto, numa 'aula aberta' sobre uma das suas obras ̶ "Atlas do corpo e da imaginação", uma obra multifacetada que mergulha nas interseções entre literatura, pensamento e artes visuais.
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Ilustração do banner: Imagem do início da sessão de apresentação do livro "Museu imaginário da Europa e outras ideias". (© Fundação Minerva • Jorge Lopes Carvalho, 2025)
