Livro sobre a Casa Nobre de Lázaro Leitão Aranha, da autoria do Professor Horácio Bonifácio, é apresentado pelo Mestre Sérgio Gorjão.
A propósito da publicação do livro "A Casa Nobre de Lázaro Leitão Aranha [Universidade Lusíada]", da autoria do Professor Doutor Horácio Bonifácio, docente da Faculdade de Arquitetura e Artes da Universidade Lusíada (Lisboa), a Universidade Lusíada (Lisboa) recebeu, no dia 8 de novembro de 2023, o Mestre Sérgio Paulo Martins Gorjão, diretor do Palácio Nacional de Mafra, que apresentou a palestra “A Casa Nobre de Lázaro Leitão Aranha — A recuperação da arquitetura doméstica lisboeta do século XVIII”, organizada pela Universidade Lusíada Editora.
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Ilustração 1: Professor Doutor Horácio Bonifácio, autor do livro. (© Fundação Minerva • Tânia Araújo)
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A Sessão de abertura foi presidida pelo Magnífico Reitor da Universidade Lusíada, Professor Doutor Afonso d'Oliveira Martins, estando, também, presentes na mesa, a Professora Doutora Arqt.ª Helena Botelho, diretora da Faculdade de Arquitetura e Artes, o Professor Doutor Horácio Bonifácio e o Mestre Sérgio Gorjão.
"[…] A nossa casa […]" beneficia, agora, de uma "[…] obra da maior relevância e interesse […], devendo-se a primeira […] à marca da qualidade do seu autor […]", investigador com especial relevância na História da Arquitetura; derivando o interesse do próprio objeto de estudo: uma obra arquitetónica e artística, a primeira em Portugal de Carlos Mardel, arquiteto que se vai destacar no projeto pombalino de reconstrução de Lisboa, após o Terramoto de 1755. Com estas palavras, o Professor Doutor Afonso d'Oliveira Martins destacou o trabalho do Professor Doutor Horácio Bonifácio, dedicado a uma casa que acolhe, desde 1985, a Universidade Lusíada (Lisboa), acrescentando ainda que "[…] as instituições vivem muito dos lugares que ocupam, sobretudo quando têm alma "[…] e esta casa apresenta marcas não só de quem a encomendou (neste caso, o cónego Lázaro Leitão Aranha), mas de quem nela trabalhou e viveu.
O Professor Doutor Afonso d'Oliveira Martins acrescentou que o trabalho agora publicado, tem a mais-valia de ter ido mais longe na investigação, sobretudo no que respeita à investigação relacionada com a arquitetura da casa, algo esquecido por Artur Lamas na obra que publicou em 1925, sobre o mesmo edifício, sublinhando ainda que "[…] a investigação cientifica conduz-nos à verdade das coisas […]", isto especificamente sobre o que se pensava e dizia ter sido a participação de Raul Lino nas intervenções arquitetónicas na Casa Nobre de Lázaro Leitão Aranha.
O Mestre Sérgio Gorjão, na sua intervenção, fez uma abordagem mais abstrata à temática da construção doméstica do século XVIII, destacando que, em Portugal, a questão do património é complexa e raramente linear e o tipo de construção desta Casa Nobre tem hoje muitos desafios pela frente, estando muitos edifícios "[…] no limite da sua sobrevivência [...]". Introduziu, também, alguns elementos históricos para explicar a relação da História política com a situação sociocultural e artística, destacando os períodos dos reinados de D. João V, D. José e de D. Maria I, durante os quais assistimos a uma vaga de reconstruções e de novas construções, porque havia dinheiro e a disposição mental. O ciclo terminou nos inícios do século XIX, com as Invasões Francesas e com o Liberalismo, apesar de uma nova elite tentar copiar modelos do passado.
Atualmente, no que respeita ao património civil, falta "[…] ganhar consciência patrimonial […]" e, na opinião do palestrante, a situação é "catastrófica", colocando-se dois problemas: o da autossuficiência e o do abandono. Aquela, deriva do "retalhe" que foi feito nas propriedades, sobretudo depois da extinção das ordens religiosas (1834) e dos vínculos (1860-1863), que levaram os proprietários a poder dispor livremente das propriedades, o que levou a uma dispersão e ainda à venda dos terrenos que davam o suporte às casas, que assim ficaram sem forma de sobreviver. O abandono, paradoxalmente, tem relação com a legislação patrimonial que temos, "[…] muito avançada, boa, mas muito teórica [...] não há uma medida clara, assertiva de valorização dos bens, mas apenas um estabelecimento de condicionantes […]", o que inviabiliza, muitas vezes, uma recuperação dos edifícios, por falta de medidas práticas de auxílio e muitas restrições.
Concretamente no que respeita ao trabalho aqui apresentado do Professor Doutor Horácio Bonifácio, o diretor do Palácio Nacional de Mafra considerou que este livro "[…] é uma boa surpresa [...], uma obra na vertente da História da Arquitetura, na sua relação com o espaço e com os diversos tempos em que a casa se enquadra, na sua adaptação às sucessivas funcionalidades […]" e vem preencher uma lacuna no campo da investigação da arquitetura civil de qualidade, algo que os estudos do património português têm descurado. "É uma obra simples, sintética, de excelente leitura [...] com um grafismo apelativo […]", sublinhando ainda que nos dá a possibilidade de "[…] reavivar o conhecimento desta casa […]". O palestrante avançou que a Casa Nobre de Lázaro Leitão Aranha "[…] é um mix de influências", uma das casas mais significativas desta tipologia na Rua da Junqueira, onde foi permitida a urbanização a partir de 1701, e teve a sua origem no interesse do cónego que lhe deu nome, em construir um palácio modesto (a partir de 1734), que fosse adaptado "[…] às suas necessidades de descanso sazonal […]" (vivia habitualmente na zona do Calhariz). A casa teve diversos donos e funcionalidades até aos nossos dias e o Mestre Sérgio Gorjão congratulou a Universidade Lusíada pelas obras de recuperação do edifício, conseguindo assim, no seu entender, "[…] garantir uma continuidade temporal [...] e trazer para o nosso tempo […]" uma obra criada no século XVIII.

Ilustração 2: Mestre Sérgio Gorjão durante a palestra. (© Fundação Minerva • Joaquim Matos Ferreira, 2023)
O Professor Doutor Horácio Bonifácio referiu, ainda, que a sede atual da Universidade Lusíada é um excelente exemplo do Barroco doméstico português, tendo nascido de um projeto de Carlos Mardel, o primeiro que este arquiteto realizou em Portugal, e que provavelmente o ajudou a projetar-se na arquitetura civil, anunciando um percurso com influências da arquitetura barroca, elegante e poderosa da Europa Central. O autor sublinha que Mardel não deixou, no entanto, de entender e integrar as caraterísticas específicas da simples, equilibrada e austera arquitetura portuguesa. Sendo que o programa original do edifício nunca foi comprometido, mesmo com intervenções destacadas no início do século XX que deixaram uma marca indelével e que conseguiram articular-se de forma harmoniosa com o que já existia. Assim, temos uma nova entrada que, pelo enquadramento azulejar e sobretudo pelo caráter teatral da escada, se aproxima da estética do Barroco, por outro lado, o espaço da biblioteca, principalmente a sua decoração, não fazem esquecer a estética e alguma influência do Maneirismo.
O docente informou que a elaboração deste trabalho foi um desafio que colocou a si próprio e à Universidade Lusíada, a quem agradeceu a confiança e o apoio prestados, confessando ainda que foi a primeira vez que escreveu uma obra exclusivamente sobre arquitetura civil, sendo a sua especialidade a arquitetura religiosa. Como investigador e historiador de Arquitetura, defende que "[…] a História da Arquitetura deve ser tratada caso a caso […]", considerando dois pontos de partida: "[…] os objetos e os autores dos objetos, e só a partir deles podemos entender melhor o que é/foi a arquitetura daquele tempo […]", integrando-a em tudo o resto. Não esqueceu, nos agradecimentos, o contributo inestimável dos colegas docentes da mesma faculdade, os professores doutores Pedro Cortesão Monteiro e Carlos Bártolo, responsáveis pelo projeto gráfico desta obra.
O autor finalizou esclarecendo que "[…] este trabalho pretende ser um contributo para a compreensão desta obra integrada na sua época, desde a fundação, na primeira metade de setecentos, até às últimas e significativas obras do início do século XX, procurando entender as questões relacionadas com o lugar, o encomendador, os arquitetos, os modelos, os diferentes utilizadores, os usos, e as obras e alterações realizadas no edifício ao longo do tempo como fatores determinantes para a compreensão total de um objeto arquitetónico particular e, naturalmente, para o seu enquadramento na arquitetura coeva."
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Fotografia do banner (da esquerda para a direita): Professor Doutor Horácio Bonifácio, Professor Doutor Afonso d'Oliveira Martins, Mestre Sérgio Gorjão e Professora Doutora Arqt.ª Helena Botelho. (© Fundação Minerva • Joaquim Matos Ferreira, 2023)
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