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        Lusíada debate a solidão em residências para pessoas idosas no Dia da Gerontologia.
        Helena Maria de Resende
        / Categorias: Ciência, CLISSIS

        Lusíada debate a solidão em residências para pessoas idosas no Dia da Gerontologia.

        A edição de 2024 do "Dia da Gerontologia", realizada no dia 6 de dezembro de 2024, nas instalações da Universidade Lusíada (Lisboa), contemplou um dos desafios sociais de importância crescente nas sociedades ocidentais contemporâneas: a solidão da população idosa, debatendo as implicações de viver numa estrutura residencial. A iniciativa e organização foi da responsabilidade do Centro Lusíada de Investigação em Serviço Social e Intervenção Social (CLISSIS), do Instituto de Psicologia e Ciências da Educação (IPCE) e do Instituto Superior de Serviço Social de Lisboa (ISSSL), da Universidade Lusíada (Lisboa).

        O evento procurou refletir e debater o tema "Contrariar a solidão em residências para pessoas idosas: que desafios?" tendo em atenção que o viver numa estrutura residencial oferece à pessoa idosa um novo modelo de convivência, com diferentes formas de gerir o tempo com implicações nas dinâmicas pessoais, familiares e sociais, numa realidade cada vez mais complexa, da qual emergem novos desafios, entres eles, a solidão.

        A mesa da sessão de abertura foi composta pelo Professor Doutor Duarte Gonçalo Rei Vilar, diretor do CLISSIS, pela Professora Doutora Maria Isabel de Jesus Sousa, diretora do ISSSL, e pela Professora Doutora Túlia Rute Maia Cabrita, diretora do IPCE, que deram as boas-vindas à assistência, presencial e on-line.

        Ilustração 1 (da esquerda para a direita): Professora Doutora Maria Isabel de Jesus Sousa, Professora Doutora Túlia Rute Maia Cabrita e Professor Doutor Duarte Gonçalo Rei Vilar. (© Fundação Minerva • Joaquim Matos Ferreira, 2024)

        A diretora do ISSSL começou por destacar que "[…] a solidão é um dos desafios sociais de importância crescente nas sociedades ocidentais contemporâneas. A solidão das pessoas mais velhas é uma matéria particularmente sensível e desafiante e faz se presente em diferentes contextos […]". O viver em estruturas residenciais/lares oferece "[…] um novo modelo de convivência, com diferentes formas de gerir o tempo, o que traz implicações nas dinâmicas pessoais, familiares e sociais numa realidade cada vez mais complexa, da qual emergem novos desafios entre eles […]". Referiu, ainda, desejar que este Dia da Gerontologia na Lusíada possa "[…] criar um espaço-tempo de suspensão do quotidiano, cada vez mais apressado, para refletir e debater esta matéria […]". A Professora Túlia Maia Cabrita lembrou que já há vários anos que a Universidade Lusíada assinala o Dia da Gerontologia e a temática deste ano é muito atual, sublinhando que "[…] o isolamento é muito complexo, mesmo ao nível das estruturas […]". O diretor do CLISSIS fez uma apresentação sumária da unidade de investigação que dirige e, tendo em consideração que "[…] sendo o envelhecimento uma conquista da humanidade, este prolongamento da vida traz consigo novos desafios e problemas [e] constitui uma das linhas prioritárias de investigação do CLISSIS", destacando alguns projetos nesta área: nos bairros sociais do Porto, sobre cuidadores das pessoas idosas e, precisamente, o tema da solidão das pessoas idosas em estruturas residenciais.

        Ilustração 2: Professora Doutora Sónia Martins. (Fundação Minerva • Joaquim Matos Ferreira, 2024)

        Os trabalhos começaram com a apresentação do estudo — "Estratégias de combate à solidão das pessoas idosas em ERPI: desafios atuais", coordenado pelo CLISSIS, em parceria com o Instituto Superior de Serviço Social do Porto e a Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo, iniciado há cerca de dois anos. A Professora Doutora Sónia Martins, do Instituto Superior de Serviço Social do Porto, começou por contextualizar o estudo, falando de conceitos como 'isolamento social' e 'solidão', que, embora interligados, são distintos. Passou, depois, para os desafios específicos da solidão em ERPI (estruturas residenciais para pessoas idosas), apontando fatores internos (organizacionais) e exteriores que influenciam a situação de solidão, e que estratégias podem ser implementadas, identificando as áreas de intervenção que precisam de ser melhoradas.

        O 1.º painel abordou "A solidão das pessoas idosas: debater o problema" e contou com a participação, on-line, do Professor Doutor António Manuel Godinho da Fonseca, docente da Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica Portuguesa – Porto, que reiterou a distinção entre 'solidão' e 'isolamento' e afirmou que "[…] a experiência de se viver sozinho numa idade mais avançada é uma experiência comum". Acrescentou que o viver só "[…] não é, em si mesmo, ameaçador, é ameaçador quando esse viver sozinho está associado ao isolamento [e quando] este isolamento social significa ausência de contacto com outros, contacto regular com outros ou a sensação de não pertença a uma determinada comunidade, ou à comunidade em que se vive."

        Ilustração 3: Professora Doutora Maria Júlia Faria Cardoso. (Fundação Minerva • Joaquim Matos Ferreira, 2024)

        Referiu, ainda, o medo que muitas das pessoas em isolamento social sentem, a vários níveis, o que tem reflexo na sua saúde física e mental. A Professora Doutora Alexandra Cristina Ramos da Silva Lopes Günes, do Departamento de Sociologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, participou igualmente on-line, chamou a atenção para o facto de "[…] o tema da solidão em estruturas residenciais para pessoas idosas ser um tema efetivamente pouco trabalhado." Na sua exposição, destacou 4 pontos principais: os ambientes físicos, as culturas de cuidado, as abordagens ao desenvolvimento pessoal e participação na comunidade, e os trabalhadores e as condições de trabalho. A Presidente da Associação dos Profissionais do Serviço Social e investigadora do CLISSIS, Professora Doutora Maria Júlia Faria Cardoso encerrou os trabalhos deste painel, realçando alguns aspetos, nomeadamente "[…] a dimensão geográfica não só de onde vivemos, mas onde vivem as pessoas que estão nos lares também […]", a relação entre o 'sentir-se só' e as condições económicas das pessoas e, ainda, a reforma, "[…] sobretudo em pessoas que fizeram da vida profissional o centro da sua vida, que construíram relações apenas no mundo do trabalho e, portanto, a reforma pode ser um choque."

        Ilustração 4 (da esquerda para a direita): Dr.ª Alexandra Ferreira da Silva, Professora Doutora Sandra Patrícia Custódio Baptista Elvas e Mestre Maria da Glória Sobral Aniceto. (© Fundação Minerva • Joaquim Matos Ferreira, 2024)

        O 2.º painel debruçou-se sobre "Contrariar a solidão em residências para pessoas idosas: estratégias e desafios" tendo sido dinamizado por várias intervenientes, com a moderação da Professora Doutora Sandra Patrícia Custódio Baptista Elvas, investigadora do CLISSIS, que salientou a necessidade de "[…] esquecer o lado da investigação porque, quando estamos na prática, nós somos efetivamente relação […]".

        A diretora de serviços de "O Abrigo"  ̶  centro de solidariedade social de São João de Ver –, Dr.ª Alexandra Ferreira da Silva, falou da sua experiência nesta instituição, existente desde 1988, referindo ser importante aceitar "[…] a solidão das pessoas que residem no Abrigo, a solidão das famílias e também a solidão da equipa [apesar de se desenvolverem] estratégias para combater ou para contrariar um bocadinho esta solidão." Aqui, em concreto, destacou o ser um lar aberto às famílias, e "[…] não condicionar a liberdade das pessoas idosas, ou seja, poder circular livremente, entrar e sair […]" porque, por vezes, "[…] as pessoas têm o direito e devem ter sempre a liberdade de tomar também decisões e de assumirem os seus riscos." Sublinhou, igualmente, a necessidade de trabalhar o ambiente, o espaço físico do lar a par de um "[…] investimento nas competências relacionais da equipa […] aquelas que nos permitem chegar às pessoas." Avançou que "[…] o desafio permanente é aceitar a solidão como fazendo parte da nossa experiência como pessoas que somos."

        A assistente social e investigadora do CLISSIS, Mestre Maria da Glória Sobral Aniceto fez uma exposição baseada na sua experiência profissional, referindo ser importante "[…] pensar na solidão como uma preocupação a vários níveis, várias áreas de intervenção da saúde, dos serviços, das ciências sociais e humanas. Portanto, é uma preocupação de todos nós". Destacou, nas ERPI, o papel das ‘assembleias participativas’  ̶  "[…] ambientes favoráveis para as pessoas exercitarem a sua voz […], as pessoas podem e devem participar, ter voz […], na procura de soluções que também são construídas pelos próprios residentes." Apresentou, ainda, um projeto inspirado nos princípios do desenvolvimento comunitário  ̶  'terraço de bem-estar', um espaço para atividades.

        Ilustração 5: Professora Doutora Marisa Accioly Rodrigues da Costa Domingues. (© Fundação Minerva • Joaquim Matos Ferreira, 2024) 

        Da Universidade de São Paulo, chegou, on-line, o contributo da Professora Doutora Marisa Accioly Rodrigues da Costa Domingues, igualmente investigadora do CLISSIS, que falou da realidade brasileira, daquilo que no Brasil se denomina 'instituições de longa permanência para idosos', e da estrutura governativa que as articula, a Frente Nacional, avançando que, em São Paulo, existem 16 locais, que recebem pessoas a partir dos 60 anos. O contexto da Covid-19 alertou para a elevada mortalidade, a nível mundial, de idosos em lares de residência e levou o Brasil a criar, entre outras iniciativas, "[…] um manual de qualidade de cuidado extremamente valoroso […]".

        Ilustração 6 (da esquerda para a direita): Dr.ª Joana Subtil Pereira, Professora Doutora Joana Filipa Garcia Figueiredo Carrera e Sr.ª Natália Guimarães. (© Fundação Minerva • Joaquim Matos Ferreira, 2024)

        A parte final do evento contou com uma tertúlia – "Olhares e palavras: da prática à narrativa" –, moderada pela Professora Doutora Joana Filipa Garcia Figueiredo Carrera, investigadora do CLISSIS e diretora de serviços da Casa do Artista, e com a presença da  Dr.ª Joana Subtil Pereira, que partilhou com a assistência a sua experiência enquanto diretora do lar Belmonte – Residência Sénior. A sua vivência passou, na altura da Covid-19, por 44 dias 'encerrada' na instituição, o que lhe deu uma visão e uma perspetiva diferente do que é 'viver num lar', levando-a a redigir o livro "Os outros de alguém: descomplicar a velhice com amor e empatia". Nesta obra propõe reflexões sobre como as famílias e as instituições podem cuidar das pessoas idosas com mais dignidade e respeito, abordando temas como a individualidade, a sexualidade na 3.ª idade, a solidão, a perda e o autoconhecimento. Salientou que "[…] todos, em algum momento, se tornarão os outros de alguém, reforçando a importância de construir uma sociedade mais inclusiva para as pessoas idosas". Falou do poder da empatia das memórias, além de questionar, também, até que ponto somos protagonistas das nossas vidas, ou se vivemos também nas histórias daqueles que nos rodeiam.

        A tertúlia contou, ainda, com a participação de Natália Guimarães, de 96 anos, residente na Casa do Artista, que deu o seu testemunho, referindo que "[…] a solidão também é as próprias pessoas que às vezes a escolhem […]", apesar de, no seu caso, gostar de conviver, de sair, de passear.

        Na sessão de encerramento, o Professor Duarte Vilar fez o balanço do evento, considerando que "[…] o encontro refletiu os objetivos que nós tínhamos sonhado para ele", nomeadamente o "[…]  compreender a solidão das pessoas idosas em ERPI." Referiu que aprendeu que "[…] se calhar, não há solidão. Há solidões, solidões diferentes […]" e nem sempre as ERPI são sinónimo de solidão, dependendo muito "[…] das formas de trabalho, das lideranças." Outro objetivo alcançado: conhecer práticas e estratégias de combate à solidão.  A Professora Túlia Maia Cabrita lembrou que "[…]  não podemos retirar da pessoa a essência do que ela é, [aconselhando a] respeitar a identidade que está para trás […], aquilo que a pessoa foi como pessoa durante a vida, para que depois possa dar continuidade de ir para a frente". As últimas palavras foram proferidas pela Professora Isabel de Sousa, que congratulou os participantes neste desafio de abordar e refletir sobre a temática, considerando que os estudos, projetos e experiências aqui apresentados e partilhados "[…] permitem um conhecimento mais profundo da realidade respaldado pela reflexão e enquadramento conceptual." Sublinhou, ainda, que "[…] esta casa [Universidade Lusíada] é uma casa aberta que gosta de desafiar e de ser desafiada. Juntos, podemos chegar mais longe na produção de conhecimento útil à intervenção".

        O Dia da Gerontologia na Lusíada é um evento já com tradição na comunidade científica, realizado anualmente, e que reflete sobre temáticas atuais e pertinentes relacionadas com o envelhecimento.

        página web calendário fotogaleria 

        __________________________________________________

        Ilustração do banner (da esquerda para a direita): Professora Doutora Maria Isabel de Jesus Sousa, Professor Doutor Duarte Gonçalo Rei Vilar e Professora Doutora Túlia Rute Maia Cabrita. (© Fundação Minerva • Joaquim Matos Ferreira, 2024)

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