Tim, vocalista dos Xutos & Pontapés, conversou com estudantes de Jazz e Música Moderna sobre gestão de carreira.
O conhecido músico português Tim visitou a Universidade Lusíada (Lisboa), no dia 3 de abril de 2024, para uma tertúlia em torno do tema das "Dinâmicas e gestão de carreira artística", uma iniciativa organizada pelo Professor Doutor Massimo Cavalli, coordenador da licenciatura em Jazz e Música Moderna, da Faculdade de Arquitetura e Artes, e pelo Professor Doutor Jorge Miguel Cecília Moniz, docente da mesma.
Este evento decorreu em ambiente de conversa informal entre o Professor Jorge Moniz e o músico Tim, nome artístico de António Manuel Lopes dos Santos, cantor, compositor, baixista, guitarrista, vocalista e um dos fundadores da emblemática banda de rock português, Xutos & Pontapés.

Ilustração 1 (da esquerda para a direita): Tim e Professor Doutor Jorge Miguel Cecília Moniz. (© Fundação Minerva • Jorge Lopes Carvalho, 2024)
Com o assunto da conversa em redor da gestão de carreira, o Professor Jorge Moniz, sentado em palco ladeado pelo convidado, levou Tim a falar da sua juventude e do início da sua relação com a música e com os adolescentes e jovens que, em meados e no final da década de 70, pretendiam fazer a sua própria música, e que, tal como Tim, procuravam uma saída para "[...] um Portugal pobre onde não havia nada e estava tudo por fazer [...]".
Tim expôs aos estudantes de música, que encheram o auditório, a realidade daquela época, onde não havia salas para tocar, não havia tradição, e apenas estavam disponíveis os bailes das coletividades para apresentação de concertos. Pontuando o seu testemunho com alguns aspetos singulares, hoje inimagináveis para os estudantes, Tim destacou o facto da total inexistência de recursos técnicos, com sistemas de som (PA) sem qualidade e parcamente sediados nos poucos espaços de Lisboa, que, quase sempre não tinham potência elétrica suficiente para a atuação de um grupo com 3 instrumentos ligados à eletricidade, ou, ainda, enumerando os preços exorbitantes dos instrumentos musicais, que amigavelmente trocavam de mãos entre os músicos da sua geração.
De acordo com Tim, foram os próprios pretendentes a músicos profissionais daquele período que inventaram as estruturas para uma indústria musical plena, inspirados pelo ideal punk do movimento "do it yourself", e que, ofereceram à juventude do pós-1974 uma nova forma de expressão musical que não existia no país.

Ilustração 2: Tim. (© Fundação Minerva • Jorge Lopes Carvalho, 2024)
Esta situação, contudo, segundo Tim, permaneceu durante os anos 80, pois grande parte dos músicos das mais famosas bandas de pop e rock nacionais continuavam a ter outras atividades paralelas, inclusivamente entre o seu grupo de sempre, os Xutos & Pontapés. Interpelado pelo Professor Jorge Moniz sobre o momento em que o grupo concetualizou, pela primeira vez, que a profissionalização poderia ser possível, Tim destacou o álbum "Circo de Feras", de 1987, como o momento de viragem, visto que trouxe a ambicionada visibilidade do grupo, com um grandioso incremento das vendas dos discos e do número de concertos.
Tim, que hoje tem 64 anos e é pai de dois filhos, também eles em início de carreira musical, alertou os estudantes sobre a existência, no presente, de uma estrutura musical estável, com um circuito de salas, agentes e empresários profissionais, onde os músicos já não se deparam com os elevados preços dos estúdios de gravação, nem se submetem ao papel opressor de editoras incipientes no conhecimento dos públicos e da indústria, como acontecera nas décadas de 70 e 80, mas que, todavia, nascem atualmente dificuldades diferentes e mais complexas, igualmente ameaçadoras para a integridade dos músicos.

Ilustração 3: Tim. (© Fundação Minerva • Jorge Lopes Carvalho, 2024)
Nesta conversa, que esteve aberta às dúvidas e receios transmitidos pela plateia, Tim procurou oferecer respostas baseadas na sua experiência pessoal. Aos estudantes deixou como conselho principal o princípio que o próprio sempre cumpriu, no início e ao longo de toda a sua carreira, pelos vários grupos que integrou (Xutos & Pontapés, Resistência, Rio Grande, Cabeças no Ar, entre outros), que é, na sua opinião, o recurso mais valioso para um músico: saber escutar os colegas, pedir conselhos e ideias, discutir os problemas com o grupo, e, principalmente, produzir uma música que seja autêntica com a personalidade de cada um.
Este tipo de eventos tem-se revelado determinante na formação dos músicos, uma vez que os põe em contacto direto com especialistas, proporcionando-lhes um trabalho focalizado em aspetos concretos relacionados com a música, nas perspetivas teórica e prática.
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Fotografia do banner: Tim. (© Fundação Minerva • Jorge Lopes Carvalho, 2024)

Jorge Lopes Carvalho
Redator e repórter fotográfico
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