Alberto Manguel em conversa com Os Espacialistas, no "Círculo de Leitores de Imagens".
O coletivo artístico "Os Espacialistas", com o apoio da Direção-Geral de Ensino Superior (DGES) e da Faculdade de Arquitetura e Artes (FAA) da Universidade Lusíada (Lisboa), recebeu, nas instalações desta instituição, no dia 29 de abril de 2024, no âmbito do projeto "Círculo de Leitores de Imagens", o escritor, ensaísta e editor Alberto Manguel. Nasceu na Argentina, cresceu em Tel-Aviv (Israel), cidadão canadiano e reside, atualmente, em Lisboa, Alberto Manguel é autor de vasta obra, entre romances, antologias, ensaios e análise literária, com vários bestsellers internacionais, destacando-se a publicação, em Portugal, em estreia mundial, do "Livro de receitas dos lugares imaginários" (2021) e do "Guia de um perplexo em Portugal" (2022), e, ainda, "Uma história da curiosidade" (2015).
Alberto Manguel está presentemente à frente do Espaço Atlântida – Centro de Estudos da História da Leitura, "[...] uma instituição cultural municipal de vocação internacional, especialmente dedicada à história da leitura e atividades e estudos literários [...], um centro para os leitores do mundo: do mundo para Lisboa e de Lisboa para o mundo", no qual podemos encontrar cerca de 50 mil títulos da sua biblioteca pessoal, "[...] uma coleção predominantemente de literatura e ensaio em Artes e Humanidades", doada ao município de Lisboa.

Ilustração 1 (da esquerda para a direita): Professora Doutora Arqt.ª Helena Cristina Caeiro Botelho, Arqt. Luís Maria Rodrigues Baptista, escritor Alberto Manguel e Mestre Arqt. Diogo Paulo Conduto de Castro Guimarães. (© Fundação Minerva • Jorge Lopes Carvalho, 2024)
A apresentação do evento coube à Professora Doutora Arqt.ª Helena Botelho, diretora da Faculdade de Arquitetura e Artes (FAA) da Universidade Lusíada (Lisboa) e investigadora do Centro de Investigação em Território, Arquitetura e Design (CITAD) que destacou o livro "Ler Imagens - Em que pensamos quando olhamos para arte", de Alberto Manguel que, na apreciação da docente, é particularmente significativo não só para o âmbito da tertúlia, mas porque "[…] as imagens são as nossas [arquitetos] referências […], a base da criatividade e da imaginação […], são aquilo que retemos no nosso subconsciente quando projetamos […] e são um dos pontos onde nos cruzamos com a literatura [...]".
O Arqt. Luís Maria Rodrigues Baptista, na sua intervenção, referiu a "escolha óbvia" que foi o autor e este livro em particular, onde se "ensina a ler uma imagem", para uma conversa na qual se pretende perceber "[…] como as palavras se transformam em imagens e como as imagens se transformam em projetos de arquitetura […]", dada a importância daquelas para esta área científica. Por outro lado, o Arqt. Diogo Paulo Conduto de Castro Guimarães fez uma resenha biográfica de Manguel, convidando o público a assistir ao programa da RTP3 – "A vida privada dos livros" –, no qual o escritor participa, em conjunto com a jornalista Ana Daniela Soares, e que vai já na 6.ª temporada.

Ilustração 2 (em destaque, no palco, da esquerda para a direita): Professora Doutora Arqt.ª Helena Cristina Caeiro Botelho, Arqt. Luís Maria Rodrigues Baptista, escritor Alberto Manguel e Mestre Arqt. Diogo Paulo Conduto de Castro Guimarães. (© Fundação Minerva • Jorge Lopes Carvalho, 2024)
Durante mais de uma hora foi possível trocar impressões com um dos nomes de maior destaque da literatura mundial, sobre o seu livro "Ler Imagens", em particular, e a sua relação com a arquitetura, começando Manguel por considerar que "[…] ler imagens não é uma questão voluntária […], estamos obrigados a ler imagens [porque estas] são parte do mundo à nossa volta [e] o mundo dá fragmentos de conhecimento que conhecemos por imagens […]".
O escritor levou o público por uma viagem por várias áreas científicas e, por exemplo, no campo da neurologia, destacou a complementaridade dos dois hemisférios do cérebro humano, e as suas funções distintas, numa curiosa análise: com a parte esquerda, vemos o detalhe; com o lado direito, o conjunto, e, infelizmente, "[…] hoje dá-se mais importância ao hemisfério esquerdo [que] é egoísta, não crê na empatia […]". Manguel apontou aquilo que considera ser uma "qualidade excecional do ser humano": a imaginação que "[…] nos permite ter uma experiência sem ter a experiência [e] permite juntar as imagens do mundo [e] traduzi-las numa narração coerente […]".
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Ilustração 3: Capa do livro. (© Almedina, 2023)
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A obra que serviu de base a esta conversa levantou várias questões por parte da Professora Helena Botelho, dos Espacialistas e da assistência, nomeadamente se "[…] é possível ver uma imagem e não a ler? Não a interpretar? […]"; no entender de Manguel, não, porque "[…] temos uma simbologia das imagens em nós [e o nosso cérebro] tem um reflexo de interpretação que é impossível de evitar […]". Para analisar os limites dessa interpretação, o escritor recorreu, por exemplo, a Platão e a Umberto Eco e, na relação da arquitetura com as imagens, refletiu-se sobre que utilização aquela pode fazer destas, considerando-se que um arquiteto "[…] tem de estar limitado pelos propósitos da sua obra [e a arquitetura] tem muitos condicionalismos [e] não há liberdade total em nenhum ato de criação: [estamos] limitados pelas nossas capacidades, pelo contexto, pela política, pelos materiais […]".
"O instinto de catalogador", que existe em todos nós e a tendência atual para a "especialização" (isto é pintura, aquilo é arquitetura), contraria o que o autor considera ser mais adequado: "[…] uma fluidez na definição de arte […]", algo que se verificava, por exemplo, no tempo de Miguel Ângelo que nunca foi reduzido a ser "apenas" um pintor. Foi, ainda, possível fazer uma reflexão sobre o uso que se faz da obra de arte que, salientou Manguel, se relaciona com a receção e "[…] a obra não acaba quando o artista acaba de a fazer […], as obras ficam sempre inacabadas porque […] o único artesão perfeito é Deus e não podemos competir com Deus […]". Abordou-se, igualmente, "[…] como a imagem pode servir para construir espaços […]" e como se articulam imagens, espaços e palavras; aqui, a relação imagens/palavras, de difícil distinção, foi particularmente destacada: "[…] não podemos ver imagens sem pôr palavras nelas […]" e o inverso também se verifica.
O coletivo "Os Espacialistas", formado em 2008, desenvolve um projeto de investigação que entrelaça Arte, Arquitetura e Educação, abraçando uma visão utópica e alternativa da arquitetura mediante instalações efémeras, design gráfico, maquetas, vídeo e fotografia.
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