Estudantes de Arquitetura da Lusíada visitaram o Museu do Tesouro Real.
O Museu do Tesouro Real, situado na ala poente do Palácio Nacional da Ajuda, em Lisboa, e inaugurado a 1 de junho de 2022, foi visitado, no dia 15 de dezembro de 2023, pelos estudantes da unidade curricular de "Arquitetura 1", do 1.º ano da licenciatura em Arquitetura (mestrado integrado) da Universidade Lusíada (Lisboa), acompanhados pelo coordenador da área científica, Professor Doutor Arqt. Mário João Alves Chaves.
A visita possibilitou aos estudantes apreciarem a opção arquitetónica escolhida para a conclusão de uma obra com mais de duzentos anos (iniciada em novembro de 1795), o Palácio Nacional da Ajuda, morada dos últimos reis de Portugal, bem como a solução museográfica para expor um acervo único em Portugal, com mais de mil peças, como joias, ourivesaria religiosa, moedas, insígnias e condecorações, entre outras.

Ilustração 1: estudantes de Arquitetura na visita ao Museu do Tesouro Real. (© Mário Chaves • 2023)
Foram várias as circunstâncias que impediram, até muito recentemente, que se avançassem com as obras: as invasões francesas, a retirada da família real e da corte para o Brasil, desastres naturais (incêndios, derrocadas, sismos) e, ainda, a falta de consenso relativamente ao desenho do projeto, que tinha, para trabalhar, uma área bruta de 12 mil metros quadrados e 200 toneladas de pedra de lioz em reconstrução de fachadas.
O projeto arquitetónico, da responsabilidade do Arqt. João Carlos Santos, atual Diretor-Geral do Património Cultural, iniciado em 2016, contou com o Ministério da Cultura, através da Direção-Geral do Património Cultural (DGPC), com a Câmara Municipal de Lisboa (CML), através do Fundo de Desenvolvimento Turístico, e com a Associação Turismo de Lisboa (ATL) como promotores.
O Arqt. João Carlos Santos salientou, na inauguração, que foi necessário "[...] definir as especificações técnicas para quase 500 novos vãos com características distintas. A conceção do projeto de estabilidade, dada a proximidade do palácio, e a esbelteza da estrutura, também foi um exercício muito delicado. [O museu] está pousado numa espécie de tabuleiro construído para receber o edifício. Passa por cima da arcada de pedra da entrada, sem pousar ou tocar esta estrutura, uma ponte com 26m de vão [...]" (fonte: re(Portugal)).

Ilustração 2: panorâmica geral do Palácio Nacional da Ajuda (à direita) com o edifício do Museu do Tesouro Real (à esquerda). (© Associação Turismo de Lisboa, 2022)
No exterior, o novo edifício apresenta uma estrutura em vidro, com lâminas verticais (possibilitando a entrada de luz natural), enquanto no seu interior, acolhe, no terceiro e no quarto pisos, uma caixa-forte com 40 metros de comprimento, 10 de largura e 10 de altura, onde estão mais de setenta vitrinas, com controlo de temperatura e humidade, repartidas por 11 núcleos, onde estão expostas, pela primeira vez em museu próprio e de forma permanente, as joias da Coroa e peças da ourivesaria real portuguesa.
A coleção do Museu do Tesouro Real é constituída por onze núcleos, sendo o primeiro núcleo dedicado ao ouro e diamantes do Brasil, cujas jazidas foram descobertas em finais do século XVII, na região de Minas Gerais, onde se destaca: "o torrão", uma pepita de ouro de mais de 20 quilos, descoberta em Goiás, na segunda metade do século XVIII, e que escapou às invasões francesas, bem como um diamante em bruto, de cor acastanhada, com quase 140 quilates. Num segundo núcleo, encontramos moedas e medalhas da Coroa, objetos amplamente usados pelas casas reais como instrumentos e suportes de propaganda, prestígio e poder, seguidos do acervo de joalharia propriamente dita, de diversas proveniências. O núcleo designado por Joias da Coroa (estabelecido em 1827) era propriedade do Estado, estando o seu usufruto reservado aos soberanos em funções e esteve ao serviço dos monarcas até à implantação da República, em 1910. No quarto núcleo, podemos apreciar objetos ligados às ordens honoríficas, de origem medieval, de ordens religiosas militares medievais (Cristo, Santiago, Avis), às quais se juntaram as de Nossa Senhora da Conceição e da Torre e Espada, e que assumem um caráter mais honorífico a partir do fim do Antigo Regime, acabando por transformar-se em ordens meramente premiais.

Ilustração 3: estudantes de Arquitetura na visita ao Museu do Tesouro Real. (© Mário Chaves • 2023)
As Insígnias Régias, fazem parte do quinto núcleo da coleção, objetos que desempenhavam um papel crucial na cerimónia de advento de cada novo monarca, que em Portugal era designada por aclamação ou levantamento, uma vez que os reis não eram coroados nem sagrados ou ungidos. Aqui, encontramos um conjunto central de objetos simbólicos como: coroa, cetro, manto, estoque, completado por outros objetos ligados diretamente a determinadas partes do ritual, como estandarte, trono, missal, crucifixo, almofada, e escrivaninha. O acervo de Prata de aparato da Coroa constituí o sexto núcleo, composto por objetos de uso civil em prata dourada e ricamente trabalhada, e do Tesouro recomposto após o Terramoto de 1755, destaca-se o excecional conjunto de 23 obras reservadas para os maiores atos públicos da Coroa, como os Batismos reais ou a Aclamação.
As peças provenientes de coleções particulares, por exemplo, de D.Fernando II e de D. Luís I, conhecidos colecionadores de ourivesaria, compõem o sétimo núcleo, encontrando-se a seguir, presentes e ofertas diplomáticas, sobretudo do reinado de D.João V. O espólio religioso está em destaque no nono núcleo, designado de Capela Real, onde encontramos uma variedade de paramentos e ourivesaria ligada às celebrações eclesiásticas.
Testemunho único dos mais sumptuosos serviços de mesa de representação do século XVIII, a baixela encomendada pelo rei D. José I ao ourives François-Thomas Germain, em junho de 1756, no rescaldo do Terramoto, conserva-se, quase na íntegra, no património nacional e a Mesa Real fazem parte do núcleo do acervo do Museu do Tesouro Real. Por fim, as Viagens do Tesouro, porque o Tesouro estava junto do Rei, acompanhava-o na sua glória, mas também nas suas vicissitudes, e os cofres do Tesouro embarcaram, por isso, rumo ao Brasil, quando, em 1807, se deram as invasões francesas. O regresso do rei, em 1821, trouxe o Tesouro, quase integral e alguns dos bens que ficaram no Brasil, para serviço da regência, dez anos depois acompanharam novos enredos políticos, embarcando para Londres e algumas peças dispersaram-se, perdendo-se-lhes o rasto.
A história do Tesouro real, a história dos reis e rainhas portuguesas e a própria história de Portugal, cruzam-se durante quase oito séculos, até 1827, com a Monarquia Constitucional, quando se separaram os bens particulares da família real dos bens considerados património da Coroa/Nação, tendo-se procedido a uma inventariação das peças de maior valor (pecuniário e/ou valor histórico). Posteriormente, com a República, a partir de 1910, foram sendo incorporadas outras peças provenientes dos espólios particulares da família real.
Esta visita (que foi sobretudo uma aula in loco), permitiu aos estudantes perceberem o equilíbrio que se procurou alcançar entre estruturas arquitetónicas separadas por séculos, e igualmente as inovações propostas para a exposição do acervo museológico, indo ao encontro daquilo que a licenciatura em Arquitetura (mestrado integrado) da Universidade Lusíada (Lisboa) preconiza como objetivos essenciais no ensino e aprendizagem desta área científica: aliar a teoria à prática; conciliar passado, presente e futuro; articular criatividade e funcionalidade; e prover projetos sustentáveis.
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Nota 1 – A descrição das coleções do Museu do Tesouro Real foi elaborada com base na informação disponibilizada na página web do referido museu.
Nota 2 – Fotografia do banner: panorâmica geral da fachada do Museu do Tesouro Real. (© Helena Maria de Resende, 2022)
