Professor António Rebelo de Sousa organiza conferência sobre implicações, para a Europa, do Relatório Draghi.
"Relatório Draghi: uma aposta no futuro?" foi o tema da conferência, que teve lugar na Universidade Lusíada (Lisboa), no dia 14 de novembro de 2024, organizada e dinamizada pelo Professor Doutor António Jorge Duarte Rebelo de Sousa, docente da Faculdade de Ciências da Economia e da Empresa (FCEE), investigador do Centro de Investigação em Organizações, Mercados e Gestão Industrial (COMEGI) e, ainda, membro da direção da Ordem dos Economistas, organismo que se juntou a esta iniciativa que abordou temáticas relacionadas com o relatório apresentado à Comissão Europeia por Mario Draghi, que alerta para os grandes desafios que a Europa enfrenta em termos de competitividade e segurança.
O Professor António Rebelo de Sousa apresentou o painel de oradores, agradecendo a presença de todos, destacando, na assistência, o embaixador do Japão em Portugal, Ota Makoto, acompanhado da conselheira para os assuntos económicos da embaixada nipónica. Realçou, igualmente, o apoio da Ordem dos Economistas (OE), representada por ele próprio e pelo seu bastonário, o Professor Doutor António Augusto da Ascenção Mendonça, um dos intervenientes na conferência. Coube ao diretor da FCEE, Professor Doutor Álvaro Matias, a abertura oficial do evento, apresentando o Relatório Draghi (RD) como "[…] um documento essencial para o futuro da competitividade da Europa […] com diretrizes valiosas para o desenvolvimento dos Estados-Membros [e] para o nosso país, as recomendações têm uma importância especial; há dados recentes que revelam que a produtividade do trabalho em Portugal é cerca de 35% inferior à média da UE […]". Salientou, ainda, "[…] a urgência de investir em formação, em educação, em inovação [considerando que] a implementação das recomendações exige uma colaboração ativa entre o setor público, o setor privado e a sociedade civil, no plano europeu e no plano nacional."

Ilustração 1 (da esquerda para a direita): Professor Doutor António Jorge Duarte Rebelo de Sousa e Professor Doutor Álvaro António Calado Afonso Matias. (© Fundação Minerva • Jorge Lopes Carvalho, 2024)
A primeira intervenção foi feita pelo Professor Doutor Hélder Manuel Gomes dos Reis, Secretário de Estado do Planeamento e Desenvolvimento Regional, e antigo docente da Universidade Lusíada, que apresentou uma síntese do RD, destacando a análise completa que faz da competitividade europeia e como a incrementar, sublinhando que, nas últimas décadas, "[…] ficou comprometida por atrasos na capacidade de inovação, pelo aumento dos preços da energia, pelo défice de competências e insuficiente digitalização e pela fraca capacidade de defesa […]". O diagnóstico de Draghi não surpreende e o orador aponta vários aspetos 'negativos':
- insuficiente investimento em setores estratégicos (transportes, energia);
- falta de apoio à inovação;
- adoção lenta de tecnologias digitais e verdes;
- fragmentação do mercado interno;
- dependência geopolítica, principalmente em relação à Rússia e China (matérias-primas, tecnologias e recursos energéticos essenciais);
- desalinhamento entre as qualificações dos trabalhadores e as necessidades do mercado de trabalho.
O Professor Hélder Reis avançou, ainda, com a análise de possíveis soluções e propostas contidas no relatório, nomeadamente uma "[…] ação coordenada e investimentos massivos, [defendendo] uma nova estratégia empresarial para a União Europeia […]" através de várias medidas: "acelerar a inovação e recuperar o atraso face aos EUA e à China; conciliar a descarbonização e a competitividade (redução dos preços de energia); e reforçar a segurança, reduzindo dependências e vulnerabilidades".

Ilustração 2 (da esquerda para a direita): Professor Doutor António Augusto da Ascenção Mendonça, Professor Doutor Mário Caldeira Dias, Mestre Maria Margarida Ferreira Marques e Professor Doutor Hélder Manuel Gomes dos Reis, durante as suas intervenções na conferência. (© Fundação Minerva • Jorge Lopes Carvalho, 2024)
O bastonário da Ordem dos Economistas, Professor Doutor António Augusto da Ascenção Mendonça, considerou o RD "[…] mais um elemento para discutir aquilo que se coloca à Europa: os desafios do crescimento […], face à fragmentação em termos de economia global. Chamou a atenção para relatórios anteriores ao RD, igualmente importantes para a análise do futuro da Europa: o Relatório Delors (abril de 1989) e o Relatório Letta (abril de 2024) e falou do que considera ser uma ‘doença’ da Europa — a procrastinação, aquilo que chamou de 'empurrar com a barriga' e que traduz uma "incapacidade europeia de avançar", de resolver os assuntos. Referiu, a modo de 'provocação', três "grandes economistas": Camões, que, segundo ele, teve plena consciência das mudanças e da necessidade de as implementar – "[…] todo o mundo é composto de mudança tomando sempre novas qualidades […] e nós temos resistência em perceber isso […]"; em segundo lugar, Nikolai Kondratiev, o teórico da Nova Política Económica (NEP) soviética (1921-1928), que estabeleceu a ideia dos 'ciclos longos' em economia: "[…] ciclicamente, de 40 a 60 anos, ocorrem mudanças que estão ligadas a grandes investimentos […]"; e, por último, Keynes, economista britânico da primeira metade do século XX, lembrando uma das suas frases: "o difícil não é aderir às novas ideias, o difícil é libertarmo-nos das antigas".
A antiga Secretária de Estado dos Assuntos Europeus (2015-2017) e antiga deputada ao Parlamento Europeu (2019-2024), a Mestre Maria Margarida Ferreira Marques, reiterou informação já referida pelos anteriores oradores e salientou, por exemplo, a "relação entre o RD e o Relatório Letta", sendo aquele sobre "a promoção da competitividade da economia europeia", e este, "centrado no funcionamento do mercado interno." Considerou de vital importância verificar "[...] o mecanismo permanente de investimento [e] a necessidade de aprofundamento da autonomia estratégica da União Europeia, discurso já muito antigo […]", e de que forma irão ser construídas as novas políticas de coesão, algo pouco aprofundado no RD.
O Relatório Draghi, apresentado à Comissão Europeia, em setembro deste ano, pelo antigo primeiro-ministro de Itália (2021–2022), e antigo presidente do Banco Central Europeu (2011–2019), foi o ponto de partida desta conferência que contou com um painel de convidados que, com base neste documento, abordou temas como: a necessidade de eliminação do gap no crescimento e na inovação da Europa relativamente aos EUA e à China; a redução das desigualdades nas aptidões; a necessidade de um plano conjunto para a descarbonização e para a competitividade; a aposta no aumento da segurança europeia; o financiamento do investimento na Europa e o reforço da governança. A mensagem central do relatório é clara: apesar da força económica da Europa, a região está em risco de perder terreno face a choques externos, tensões geopolíticas e avanços tecnológicos, a menos que tome medidas estratégicas urgentes.
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Fotografia do banner (da esquerda para a direita): Professor Doutor António Augusto da Ascenção Mendonça, Professor Doutor Mário Caldeira Dias, Professor Doutor António Jorge Duarte Rebelo de Sousa, Mestre Maria Margarida Ferreira Marques e Professor Doutor Hélder Manuel Gomes dos Reis. (© Fundação Minerva • Jorge Lopes Carvalho, 2024).
